Impotência

2
202

A partir do momento em que recebemos o diagnóstico da demência, nosso olhar em relação ao ente querido muda totalmente. Sem percebermos já começamos a deixar de vê-los como o provedor da casa, e sim como alguém que daqui para frente, não sabemos como, teremos que cuidar.

O ente querido automaticamente é promovido a paciente e nós enfermeiros, sem contar inúmeras atribuições que nós mesmos nos damos, após o veredito.

O ente querido muitas das vezes, sem entender a razão de tantas mudanças para com ele e na vida dele, ou se fecha ou coloca a casa abaixo, em busca de uma explicação.

Imaginemos que nossos pais passaram anos cuidando de nós, da casa, nos dando uma segurança, eram o nosso apoio financeiro, emocional e quando menos esperamos, os scripts desta cruel peça, são modificados.

A fala agora é nossa. Eles, absortos ficam observando o desenrolar de toda esta balbúrdia, já não podem mais dirigir, não podem mais lidar com o próprio dinheiro, não se sentem mais seguro em sair sozinhos, parece que agora fazem parte da mobília da casa.

Um passa dá um ” oi”, o outro passa direto, e os dias vão passando, a mente já não consegue discernir o real do irreal, vem as “fraldas’, vem as chamadas no diminuitivo, se vê sem nenhuma perspectiva, muitas coisas já não lembra, não sabe onde está, quem é quem, o que está fazendo aqui, ali.

Em seus lapsos de memória o pretérito se manifesta, a saudade o aquece, e ele se vê envolto de lembranças das quais hoje, já não se fazem mais presentes.

Surgem as cobranças internas e a memória volta um pouquinho, e ele lembra que naquele horário ele estava trabalhando ou fazendo qualquer coisa, menos dentro de casa sendo mandado por quem sempre o obedeceu.

As crises surgem, agitação, medo, insegurança, depressão, choro, raiva, tédio…

Total impotência diante de um dragão chamado Alzheimer!

O que está acontecendo comigo? O que vocês estão fazendo com a minha vida?

Por que meus filhos estão agindo assim?

Perguntas internas, dúvidas, incertezas, pavor.

É preciso ter muita paciência para lidar com a incógnita na vida do outro, pessoas que sempre foram a cabeça da casa, que sempre estiveram a frente de tudo, eram a bussola deste navio.

O que foi feito delas? Quem são elas hoje?

É preciso lembrar que antes de mais nada ele continua sendo uma pessoa que deve ser tratado com muito carinho, amor e gratidão.

Se aprofundar nos estudos sobre a doença é um dos caminhos para se entender o que se passa do lado de lá, eles continuam sendo cidadãos comuns, e precisam ser tratados como pessoas, a diferença hoje é que estão doentes, mas nada pode mudar o nosso olhar e respeito para com eles.

A medicação faz parte do processo, agora ele precisa se sentir seguro no ambiente em que ele vive.

Imaginemos um homem de personalidade forte, e de repente a filha dando o banho, colocando fraldas?

Como você se sentiria se estivesse no lugar dele?

– Não, ele tem, demência e não lembra de mais nada, aliás, não sabe de mais nada.

Ledo engano, precisamos ir devagar neste terreno, no sagrado do outro mesmo doentio, adentrar com respeito, com sabedoria, sem bater de frente, falar com brandura, aguardando o momento certo, pois estes ingredientes são extremamente necessários para que a medicação prescrita pelo profissional de saúde, faça efeito.

Berna Almeida

2 COMENTÁRIOS

  1. Someone essentially lend a hand to make critically posts I
    might state. That is the first time I frequented your web page
    and up to now? I amazed with the research you made to make this actual put
    up amazing. Wonderful task!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui